Estou te deixando esse bilhete como uma última satisfação pra você. Talvez quando você começar a ler ( ou chegue ao fim dele ) eu já esteja em meio a estrada cercada por Cactus quentes e inspiradores. Não suportei tantos dias. Foram muitos dias. Olhando agora pra frente, vi nossa foto. Hoje ela está tão velha, tão antiga, tão apenas foto... Antes de sentar aqui na varanda para te escrever, fui até a locadora e trouxe aquele filme que você tanto gosta. Está em cima da sua cama do lado do travesseiro que eu te dei. Ah o pagamento? Fica tranqüila, já está tudo certo. Investi quando trouxe pra mim. Achei melhor assim. E eu não gosto de investir apenas quando me desfizer. Sua amiga ligou. Anotei o recado. Parecia bem feliz. Pediu que você ligasse pra ela. Liga.Fiquei feliz em achar minha Bíblia hoje pela manhã, fazia tempo que sabia aonde estava.
Só pra constar, para começar a escrever essa frase que você está lendo, eu tive que parar para chorar. Por isso o papel molhado.Não agüentei quando o filho da vizinha veio até mim e perguntou com um sorriso no rosto: Qual o sonho do senhor? Tão difícil... Nesse ponto do bilhete eu devo estar parado em algum canto da estrada comendo, lembrando e querendo. Ah! esqueci de te falar, mudei o piso da rampa de entrada da nossa casa. Agora você não precisa ter mais medo de derrapar pra entrar, fiz tudo! Inclusive a placa de “Bem-Vinda”. O motivo de esse bilhete estar junto da janela? É o local onde tenho certeza que você irá conversar com a lua hoje a noite, como todos os dias. Mesmo os vizinhos te chamando de louca, ouvia as conversas entre vocês lá do meu quarto. Era tão lindo... Tenho que parar de escrever e ir. Vou pegar o ônibus no meio da estrada. Não quero ir para a rodoviária. Muita burocracia no início da viagem. Melhor assim. É apenas uma viagem não importa de onde começo. Ela sempre recomeça. Se eu voltarei? Quando eu volto? Para onde eu volto? Não temos hora e não temos lugar lembra? Estou aqui.