Me faço papel da vida. Me deixando escrever qualquer história, levado pelo vento, sem pretensão de lugar parado. Por ser papel me queimo fácil, me amasso e não volto ao normal tão cedo. Boca, pele, corpo, tudo pode ser feito e refeito. Me unir a outros para ser mais um, e outro e outro…Me refazendo a toda hora. Jogado fora como descarte, novo com cheiro vazio a ser escrito. Coração duro pesa, alma de papel não eleva o coração. Me permiti ser assim. Folha. O mais próximo que consegui para ser natural.
5 de ago. de 2020
10 de jun. de 2020
Não Acontece Mais Nada
Coloquei a cara na janela e respirei fundo. De olho fechado, me oferece o mundo o que eu quiser de maior. O que me levar pra mais longe é o que vou. A rua da minha casa quando criança, acordar cedinho pra ir pra escola e até a casa da minha vó no interior. Cheiro de manhã me crava um dia inteiro. Como a chuva. Que continua caindo até hoje sem mais me molhar. Não sei onde me perdi da chuva. O vidro da janela molha, o clima esfria e nada acontece. Onde será que me perdi da chuva? Não acontece mais nada além de chover.
5 de abr. de 2020
Pensamento Ocupa Espaço
Sinto que meu pensamento ocupa espaço. Tem tamanho, tempo e forma. Por vezes tem cheiro e até um som específico. Por vezes saudade, algumas vontade, outras ilusão e, na maioria das vezes, elucubração necessária.Meu pensamento é vivo, mas dominado. Só afrouxo as cordas quando eu preciso que me desobedeça. Meus sentidos o fazem entrar e o que eu sou o jogam pra fora. Já nem sei se sou ser ou pensamento. Ideia ou ação. Se para o bem, que eu seja mente. E que não me obedeça tanto.
30 de mar. de 2020
A Solidão é Uma Farsa
Até pra ser não dá pra ser sozinho. Imagina se achar que deve. O pleonasmo de viver e acompanhar-se é da natureza nossa. Ganhar, perder, sorrir ou chorar sempre vai ter alguém. Causa ou consequência. A hipérbole não tem poder nenhum sobre ser só ou não. Demais ou pouco nem existem aqui. Talvez seja esse o maior ensinamento: o equilíbrio de ser e pronto. Sem copo cheio, nem vazio. Amar, odiar, querer ou desdenhar. Tudo tem mais um. Ela, ele, aquilo ou aquele. Sempre terá mais um. A gente não é sozinho. Nem pra amar, muito menos pra existir. Não tem como mover-se do nada. Há algo ou alguém aí e aqui. Essa é a regra. Sem chance alguma de exceção.
27 de mar. de 2020
Em tempos como esse
Hoje saí na rua. Andei pelo quarteirão. Os poucos que assim também o faziam, me lançavam olhares receosos, distantes e frios. A moça conhecida da rua de trás nem soltou o carrinho do bebê para qualquer indício de aceno. Voltei pra casa. Aquela que de calor sempre foi fonte me espera sentada no sofá. Me olhou e perguntou se estou bem e como foi essa volta tão desobediente em tempos como esse. Disse que não foi nada. Não tem nada lá fora. Nunca há nada. Tudo está aqui dentro. Ai ou aqui dentro. Em tempos como esse, a gente percebe como tem coisa aqui dentro. Desligou a TV, me chamou pra dormir. Conversamos até 2 da manhã. Cheios, dormimos.
4 de jan. de 2020
A Hipérbole é Foda
A realidade, em certo momento da vida, é uma questão relativa. Nos outros, a necessidade de certeza e segurança faz com que nos apeguemos a qualquer convenção. Mas é uma necessidade humana. Isso não acontece com o sentimento, por exemplo.
A noção de amor é empírica, indubitável e não decifrável por natureza. É simples saber o que é amor. O problema é que nos dão palavras demais. O amor é um mero excesso discursivo.
1 de jan. de 2020
Verde, Arte e Versos
Ontem você me veio na mente. Saí na rua caminhando sem ter lá um objetivo específico. Apenas pra pensar em você em movimento. Soube ontem, por um amigo, que você está morando em uma casa bem simples no final da cidade. Quando eu soube disso me veio uma felicidade no coração. Era o seu sonho. Com certeza você deve estar rodeada de verde, luz e versos. Era o que a gente sempre falava: "vamos viver rodeados e arte e versos". Você conseguiu. Depois que você foi embora, como te prometi, segui a vida. Tem pouco verso ao meu redor e as coisas nunca estiveram tão cinzas. O pior disso tudo é que eu me acostumei a ver tudo assim. Tudo bem cinza. Tenho receio até que quando a cor me aparecer o estranhamento me bata. Estou escrevendo esse texto aqui pra que ele vire algo que de alguma forma chegue até você. Um email, um telefonema, um pensamento ou uma prece. Mas que chegue até você. Fiquei feliz em saber de você. Se receber algo disso aqui, me fala.
25 de dez. de 2019
Ver e Transcender
Que os olhos sejam porta de elevação. Além mesmo do que se vê. Que não nos confunda, mas que nos eleve. Não há como ver e seguir. Ver e se mover é da nossa natureza. O olhar pensante é uma questão de honestidade com a nossa missão. Viver o mundo e no mundo vendo o que se vê nos obriga a não ficar parado. Transcender é uma ordem.
9 de dez. de 2019
Essas Coisas Não Mudam
Hoje você me disse de uma possibilidade tão remota que quase estranhei tal proposta. Por pouco tempo. Tinha esquecido da sua imprevisibilidade. Não precisava eu falar muita coisa pra você ouvir o que eu queria. A gente é mar e céu, essas coisas não mudam. Nem eu mudei e nem você. Me fala da tua vida. Mas me fala de perto. Eu não posso ajudar em nada, mas deixa eu te ouvir um pouco mais.
A gente era pra estar junto. Essas coisas não mudam. Você me disse do sentimento que tem, diferente do meu, ainda algo existe. Selamos o fim. Encaramos as impossibilidades. Entrou para a história. Pra ser contada com respiração tranquila. Selamos o fim. De vez. Acabou o que poderia ser. Agora é o que foi e só. De qualquer forma, obrigado. Por tudo. Até pelo impossível. Deixa a minha sanidade. É tudo que interessa.
27 de nov. de 2019
Não Te Falaram Nada Sobre o Amor
A gente inventou um amor de um jeito torto, brilhante demais. Uma espécie de plano das ideias que vale no falar, na ideia e para os outros. Amar sangra muito mais do que qualquer que seja teu sofrimento. Aliás, sangra igual. Desculpa a minha falta de experiência em sofrer. Amar é de um desprezo sem tamanho ao lúdico. A lucidez necessária para amar deveria ser cortejada como uma Rainha que passa. Nem o ódio é contrário. Não é preciso estar lúcido para odiar. Basta não lutar contra nada. Odiar é de uma falta de coragem sem tamanho. Amor requer um esforço das mais diversas fontes. Não tem cor nem brilho, só sensação. E fim. Isso mesmo. Amor tem fim. Se ninguém te disse isso, eu faço questão. Amor acaba. Por não aguentar a dor ou pela covardia de não a querer sentir. Uma pessoa sem amor é inata, imóvel. Por dor comum, o amor une. Por necessidade, o amor perdura.
Não se pode viver sem amor. E não se pode viver sem doer. Amar dói. É da vida. Ela também.
22 de ago. de 2019
Vi a noite da janela
A noite traz um silêncio que me faz gritar por dentro e nesse escrito aqui. A noite é a hora de sair de casa, de dentro e de si. Ela me dá uma cegueira pra ver o bem. E só o bem. Com o mal a mesma coisa. Ela traz um que de sonho, de romantismo. Por vezes, aténde esperança. Na noite vem o choro, o grito e o tiro. Há quem diga que é nela que deixamos de ser quem somos. Eu já que ela me mostra demais. Poderia me iludir com mais eficiência. A noite tem mais luz que o dia. Mais barulho que a rua. Mais coisa que outra coisa qualquer. Há quem durma, que dance, quem brinde e quem apenas olha pra ela. Nem que seja pra pensar e escrever isso tudo aqui.
6 de ago. de 2019
Sobre o que há lá fora
E se acontecer? O que vai ser? O que vai virar? Será que vai morrer? Não consigo entender os motivos que me levam a me importar. Em que momento isso me cravou o peito? Parece que a ferida cicatrizou com o punhal ainda aqui. Dói tocar. Ora, mas se depois me mantenho vivo, o que há de mais grave? Sentimento é algo tão mortal assim? Mais que pessoas?
O racional do meu discurso e a emoção do que sou realmente me jogaram numa linha tênue entre escolher e pensar. Amar e seguir. Na verdade, tenho pensado que, no final, o que importa é esse nosso universo mesmo. Tudo que sabemos que existe, está dentro de nós. Imagem, som e o que mais existir. Somos nós o universo, como templo mesmo.
Cheguei a um mero pensamento conclusivo. Cuidemos de nós. Não há nada lá fora. Estamos em si. Sabemos de si. Cuidemos de nós.
O racional do meu discurso e a emoção do que sou realmente me jogaram numa linha tênue entre escolher e pensar. Amar e seguir. Na verdade, tenho pensado que, no final, o que importa é esse nosso universo mesmo. Tudo que sabemos que existe, está dentro de nós. Imagem, som e o que mais existir. Somos nós o universo, como templo mesmo.
Cheguei a um mero pensamento conclusivo. Cuidemos de nós. Não há nada lá fora. Estamos em si. Sabemos de si. Cuidemos de nós.
19 de jul. de 2019
Me leva, por favor!
Eu queria me embriagar de arte até não mais existir. Uma vez me falaram que a arte é o que dá sentido à vida, eu nunca senti isso tão real como agora. Ao meu redor, um montão de normalidade, banalidades e importâncias. Aqui dentro, tudo isso vezes dois. Eu fecho os meus olhos e tento bloquear via alegorias tudo que há de ruim. Me dói o que penso. Me acaba a frequência. Preciso de arte. Que ela me tire daqui. Que me leve. Que me mate, mas me deixe aqui vivo. Tem muita coisa ainda, mas me mata quantas vezes quiser. Ano passado eu nem morri, mas esse ano que a arte me tome. Me leva, por favor. Me leva.
13 de jul. de 2019
Viajei
No meio do caminho que eu te encontrei. Foi uma viagem. Eu tava andando com destino. Eu sabia pra onde tava indo. Com lenço, documento e coberto de certeza. Foi aí que descobri que eu nem precisava viajar tanto. Estar tão certo e muito menos saber exatamente pra onde de vai. Parei, sente na beira do caminho e peguei na sua mão. Agora estamos aqui andando sem saber pra onde. E quem disse que eu quero saber? Não solta a minha mão.
21 de jun. de 2019
Deixa o Poeta
Deixa que o poeta fale. Ele vai ter um tom de voz diferente, um jeito de ver a vida que não vai ter nada a ver com o que você aprendeu desde pequeno. Mas ele virou poeta. Ser poeta tem dessas coisas de inquietar. Um pouco mais de inquietar-se. Fica tranquilo que ele sabe muito do que está falando. É poesia. E de poesia a gente é feito. A gente nunca nem olhou pra dentro. Deixa o poeta.
13 de jun. de 2019
Negativa
Se eu pudesse te dar o mundo juro que não te dava de jeito algum. Não vou competir com tanta gente. Te dou o meu. Espero que te satisfaça. É tudo o que tenho.
Melhor Parar
E quem disse que eu preciso seguir? E se eu quiser parar por aqui? E se eu tiver fechado o caminho? E se eu não quisesse ir além? E ? E se a partir daqui eu não falasse mais nada? Vai permanecer? Vai durar? E quem disse? Quem tá falando aí? E aqui? Eu não quero seguir. Me deixa aqui com você.
Meu Amor Por Você Vai Acabar
Meu amor por você vai acabar. Acho bom te avisar. O tamanho dele hoje não será o mesmo de amanhã. Ele está bem próximo. De você e de acabar. Não haverá mais amor. A solidão se aproximará. Ela já vem chegando. Cuidado. Presta atenção. Meu amor por você vai acabar. Eu não tenho mais outra forma de dizer que sinto a não ser passar a sensação de urgente finitude. Aproveita.
10 de jun. de 2019
Vai e Vem
A perfeição tem um perfume muito gostoso mesmo. Encanta a gente, chega perto e convence. Nos convence de tal jeito que pensamos até que ela existe. Não, ela nunca esteve lá. E nunca vai estar. A vida é caótica e com uma infinidade de remendos que a gente vai tendo que lidar. Nela, uma única certeza: os ciclos. Início, meio e fim. E isso não é uma lei da nossa vida, é uma lei da natureza. Tudo, absolutamente tudo, tem início, meio e fim. E assim segue. Não há como deixar de lado que o apego a pensar que tudo será do jeito que queremos, perfeito, vai nos encantar. Mas esses não somos nós. Somos cíclicos. Pessoas, situações, sentimentos e tantas outras coisas desses universo vão e voltam. Somos convidados a entender a roda da vida, não ficar parado.
25 de mai. de 2019
Sábado a Tarde
São 15h14. O sábado com mais cara de segunda que conheço. Ressacado. Destruído. Noite de sexta que insistiu em ficar até agora martelando feito concreto. Eu nem queria te ver e muito menos que você ficasse. Lá, na hora e muito menos aqui dentro. Se é que saiu um dia. Quero que saia. Saia logo. Nem sempre as coisas são como você quer. Se voltar, me diz a hora. Vou estar lá. Seja o dia que for.
29 de mar. de 2019
Promessa
Você não mudou nada. A música do teu seu sorriso ainda tem o mesmo verso. Qualquer que fosse o lugar, estaríamos realmente numa praia qualquer de finais de sol. Como sempre foi. Parece que nada mudou mesmo. Jeito, voz e o balançar de cabelos ainda é o mesmo. Até esse teu tom de falar rápido envegonhada. Típico. Nada mudou. Parece que foi hoje. E foi. Se tinha gente ao redor eu não vi. Se tinha outros sons me fiz de surdo. Nada mudou. Nunca muda. Acho que fomos condenados e estar juntos, nem que seja na lembrança. Nada mudou. E que assim seja pra sempre. Foi o que nos prometemos.
15 de fev. de 2019
31 de jan. de 2019
Não dá pra se ter amor
Não dá pra se ter amor. Amor é livre. O amor voa e toca quando, onde e quem ele quer. Quando pensa que se tem, ele vai. Quando pensa que ele nem está, ele te dá um tapa. Feito palhaço mesmo. Não há como viver de amor. A vida não é intercalada. Vida é rio que corre sem parar e com pressa. Amor é vento de varanda. Vem quando quer e do jeito dele. Não dá pra se ter amor. Ele não se deixa levar. Ele se basta. Entra sem bater. Toca a qualquer um. Come o que quiser. Coração, alma ou gente. Mas deixa rastro. Nostalgia, saudade, falta e cheiro. Sempre. Amor é vela. Precisa de calmaria pra permanecer. Sem que isso aconteça, dura o tempo de uma faísca, queimando o máximo que puder. Amor não tem nome, por mais que se pense e que se lembre. Não dá pra se ter amor. Só a gente se dá. Ele fica se quiser. Ingrato e bem-vindo.
E a gente aqui
Quanto tempo que se tem. Quanto fogo pra queimar. Quantas vezes que se mostra. Quanto? Quanta vela pra ser luz. Quanto grito pra ouvir. Quanto papel pra ser. Quanta gente pra ser forte. Quanta silêncio pra se ter. Quanto amor pra queimar. Quanto coração que se mostra. Quanto? Quanta boca pra ser luz. Quanto abraço pra se ouvir o que quiser. Quanta poesia pra ser. Quanto pra verso pra ser forte. Quanto?
E a gente aqui.
30 de jan. de 2019
8 P.M.
Há 3 horas, contadas no meu relógio, o cantor está ali. Não sei se foi só eu que percebi, mas já avistei duas ou três lágrimas perdidas entre um refrão e outro. Alternando entre bebida e canto, ele continua ali. Vejamos, na sua frente, uma reunião de senhores de meia idade de cortes de cabelo conservadores e fala alta. Por vezes, até abafa o canto do rapaz, acredita?
Do seu lado esquerdo, um casal que entre uma dublada na música e um tocar de mãos, já vão na décima cerveja e ainda não pediram nada pra comer. Curioso, a luz está baixa exatamente onde eles estão. Culpa do universo que conspirou pra isso, dele ou dela? Não sei.
Estou aqui, logo atrás deles. Até o momento, nove cervejas, um recorde. Cheguei às 20h e ainda são 22h30. Eu, Anderson, o garçon e o cantor, estamos nos entendendo por aqui. Um me traz a cerveja, o outro o canto, eu agradeço a um aplaudo o outro. Anderson me disse ainda pouco que o cantor está apaixonado e que é pela menina do caixa.
- É João o nome do Sr, né? Pois Seu João, bonita a história deles dois, viu?
Carmen, a tal menina do caixa, nunca deu bola para o cantor. Ele já tentou Eagles, David Bowie, Cazuza, Lulu Santos e até Pink Floyd. Nada até o momento. Não me contive e mandei um bilhete para o cantor, por outro garçom. Nele escrevi "Se Eagles não funcionou. Desiste. Mas toca Eagles novamente, por favor" . Eu não faço ideia do que isso provocou no cantor. Ele mandou um "New Kid in Town" alegre e satisfeito. Anderson me olhou.
- Eita. Acho que agora ele se embebedou de vez.
Eu só entendi o que Anderson tinha me falado alguns segundos depois. Pedi a conta entre uma estrofe e outra. O casal da meia luz curtiu, o senhores já tinham ido embora. Todos estamos agora na mesma energia. Suado e, confesso, um pouco mais cantor que só um cliente, fui ao caixa e conheci Carmen. O boa noite dela veio com sorriso da olhada que deu no celular colada com a olhada que deu pra Anderson ali no canto. Entendi rápido. Paguei a conta. O carro chegou.
No caminho fui pensando em como deve ser triste cantar todas as noites pra quem não ouve. E como deve ser pior quando isso é pra quem se ama. Não se dei uma pílula de delírio ou realidade ao cantor. Anderson me enganou, estava tudo ali, na minha frente acontecendo. "Motorista, toca para a praia. Preciso pensar sobre algumas coisas".
x
28 de jan. de 2019
Sobre O Que Escrevo
Não vou tentar que a poesia venha em meio a algo tão distante do que ela merece. Ela é sobrevivência. Vento interno que só vem à tona quando o ambiente permite. Seja o ambiente o tempo, espaço ou alguém. Certa vez, me perguntaram o que me inspira e eu não fazia ideia. Outra me perguntaram qual era o meu estilo de poesia.
Meu Nobre, eu nem sei se tenho estilo pra ir à padaria, imagina a minha poesia. Se você puder, inclusive, me joga um rótulo, por favor. Vai ser mais fácil dizer das coisas que escrevo. Fala algo bem bonito. Algo como Poesia de Bêbado, qualquer coisa assim. Só peço que, ao dar um nome, usa o que tiver de mais bonito aí. Tenho lá a minha suspeita sobre o que escrevo. É um espelho. Isso! Gente, descobri: SÃO ESPELHOS! Dá pra se ver, mas depende da iluminação ao redor. Ta aí, acho que tenho um caminho. São espelhos, ora. Por vezes quebrados, é verdade, mas ainda espelhos.
Líquido
Já fui confiante.
Segurança.
Adulto.
Criança.
Calma, não vem agora.
Trabalho.
De família.
Tive mais de 40.
Menos de 20.
Espera um pouco. Ainda não.
Tive muitos amores.
Pouca força.
Muito fogo.
Inocência.
Mais fogo.
Mais. Muito mais fogo.
Não vem ainda.
Chinelo.
Sapato.
Jeans.
Manga Longa.
Boné pra trás.
Ray Ban.
De Sol.
De grau.
Pro lado.
Pro outro.
Sem lado.
Cheio.
De Si.
De Amor.
De Pompa.
De Choro.
De Riso.
De Saudade.
Vai vir mesmo?
Estrela.
Pedra.
Mar.
Grão de Areia.
Tudo isso.
Vem então.
Bem-Vinda
24 de jan. de 2019
Sentir Sem Possuir
4 anos.
Ou mais.
Sei lá.
A gente tem tanta coisa.
Dentro de si.
Pra falar.
Pra dizer pra si.
Pra viver.
Umas vão.
Outras voltam.
Como você.
Que voltou.
Que me disse do toque.
Da rotina.
Do afago da poesia.
E da alegria de voltar.
Aqui fiquei.
Inquieto quieto.
Me atrevendo em ações.
Que era pra ser só poesia.
Me jogando em situações.
Coisa que eu nem queria.
Mas você voltou.
Como os mesmos diamantes verdes.
Véu Loiro.
Que bom que voltou.
A poesia nunca vai de vez.
Ela volta pra onde pertence.
O outro.
O mundo.
E a gente.
Que bom que voltou.
Ou mais.
Sei lá.
A gente tem tanta coisa.
Dentro de si.
Pra falar.
Pra dizer pra si.
Pra viver.
Umas vão.
Outras voltam.
Como você.
Que voltou.
Que me disse do toque.
Da rotina.
Do afago da poesia.
E da alegria de voltar.
Aqui fiquei.
Inquieto quieto.
Me atrevendo em ações.
Que era pra ser só poesia.
Me jogando em situações.
Coisa que eu nem queria.
Mas você voltou.
Como os mesmos diamantes verdes.
Véu Loiro.
Que bom que voltou.
A poesia nunca vai de vez.
Ela volta pra onde pertence.
O outro.
O mundo.
E a gente.
Que bom que voltou.
4 de dez. de 2018
E Virou Eterno
A gente ganhou a eternidade. Já parou pra pensar nisso? Nós seremos a gente para todo o sempre. Como amigos que somos. Só que você não vai estar aqui por alguns anos. Isso não é problema. O que importa é que GANHAMOS A ETERNIDADE! Viva!
Um montão de gente querendo essa dádiva e a gente conseguiu. A gente pensava que era só um fim de tarde. A gente pensava que era só uma risada. A gente pensava que era só mais um dia. E tudo era a construção de um "pra sempre" raríssimo. Eu queria muito te agradecer por isso. Você eternizou o que vivemos, mesmo depois de partir.
E quando perguntarem quem fomos nós, que sempre haja alguém para contar o que fomos. A gente jogou ao universo a nossa história. E lá vai vai permanecer. A gente jogou aos céus a nossa história e lá está. A gente mostrou ao mundo que era possível. E assim agora é. Ganhamos a eternidade. E tudo graças a você. Logo logo a gente se encontra.
Um montão de gente querendo essa dádiva e a gente conseguiu. A gente pensava que era só um fim de tarde. A gente pensava que era só uma risada. A gente pensava que era só mais um dia. E tudo era a construção de um "pra sempre" raríssimo. Eu queria muito te agradecer por isso. Você eternizou o que vivemos, mesmo depois de partir.
E quando perguntarem quem fomos nós, que sempre haja alguém para contar o que fomos. A gente jogou ao universo a nossa história. E lá vai vai permanecer. A gente jogou aos céus a nossa história e lá está. A gente mostrou ao mundo que era possível. E assim agora é. Ganhamos a eternidade. E tudo graças a você. Logo logo a gente se encontra.
27 de nov. de 2018
Tentativa sobre quem é ela
Dia desses ela me falou que vivia em seu lar. Lá longe, lá dentro, distante ou pertinho. Ela é uma casa em que mora. Luz como teto, sorriso como porta. Ela dança quando quer e a música vai num batimento cadenciado de coração pulsante ou calmo por vezes. Ela tem todas as cores, todos os sons. Grita ao mundo num sussurro de um bom gesto. Olha para ampliar quem está sendo olhado. Ela é tudo o que disse aqui. Do contrário, seria eu só mais uma tentativa de saber quem é. Mesmo que acho que sou isso. Uma tentativa dela.
27 de set. de 2018
Salvem os Amantes
Eu tenho sim um pouco de pena dos que amam. Se dar a algo, a alguém, é de um martírio colossal. Um se esvaziar de si e se preencher com o que vem de fora. Deixar que qualquer música fale sobre você e deixar a respiração ritmada dela. Como eu sinto, por vocês, amantes. Que gritam aos quatro cantos tudo o que sentem. Que beijam de olho fechado pra voar dali sem tirar o pé do chão. Vocês precisam de ajuda. Entre mundo, sonhos e realidade, vocês preferem sonhar desvairadamente. Tudo bem. Se encantam pela falta de fronteira que tem o silêncio numa noite à meia luz. Toda a minha compaixão e empatia aos que amam. Eles não vivem entre nós. Nunca. Preferem seus mundos, por vezes dividido, pra um, dois, três…Contem com meu apoio e paciência sempre. Mesmo quando a lucidez bater e vocês perceberem o que estão fazendo. Loucos.
Sei tudo sobre vocês.
Sei tudo sobre vocês.
2 de jun. de 2018
Antes dela voar
Voz arejada
Jeito que faz viajar
Presença que fez lembrança
Sorriso de mar
E um olhar de canto de rosto apaziguador.
Ela é chuva por encantar numa tarde qualquer.
Noite por silenciar na chegada.
Manhã por despertar algo sempre bom.
Tem dança na alma
Com alma dançando
Música na vida
E arte como destino.
Amor são gestos.
E ela é.
Amor.
Gesto.
E qualquer coisa que seja boa por essência.
É pássaro.
E só quer voar e cantar.
Só.
15 de fev. de 2018
Passarinho
Ela disse que queria voar. Sem sair do chão. Voar mesmo. Por aí, por mundos, por mares, por abraços e dentro de si. Sem sair do lugar. Ela me disse que queria voar. Por favor, por necessidade, por sobrevivência. Ela só queria voar. E agora o que eu faço? Escrevo no ar?
14 de out. de 2017
Vi na rua
Ela andava rápido, muito rápido. De fones de ouvido e um celular na mão. Ele vinha distante dela, mas já olhava de longe o que aparentava ser o maior presente do início da quarta-feira. Enquanto ele abria um sorriso há 200 metros de distância e esfregava suas mãos numa calça jeans surrada, ela continuava olhando o celular. Também sorria, mas para aquela tela ali. Resolvi parar e olhar como seria aquele encontro. Parei na esquina para esperar o desfecho.
Ele abriu os braços com um sorriso no rosto e ela tirou os fones, deu um meio abraço de uma mão só e um beijo seco. Seguido de um acariciar simples no rosto daquela menina de cabelos pretos e um rosto indiferente. Eles continuaram caminhando e era perceptível a vontade dele de falar sobre qualquer coisa. Sobre o filme que viu, sobre o ocorrido hoje quando acordou ou mesmo da saudade que tinha. Ela não esboçou reação alguma. Ele manteve o sorriso e caminharam.
Eu continuei meu caminho pensando sobre aquele cara que manteve o sorriso sem resposta, apenas pela presença do seu amor.
Segui.
17 de mai. de 2017
5 de mai. de 2017
O foda é que a gente sabe antes
tudo é o que a gente pensa
até que chega a hora de ver
que o pensamento sobre tudo
nada condiz com o realmente haver
tudo é ensaiado numa sala que eu nunca vi
todos eles são fantoches de uma história que rege o mundo
onde a gente nasce devedor
da vida que foi dada pelo dono disso tudo.
tudo nos toca, mas a gente sente pouco.
tudo nos olha, mas a gente faz de louco.
o tudo nos ouve e a gente fica surdo.
pra qualquer voz que vem de fora, além do nosso mundo.
tudo é a cabeça que aqui existe.
é a alma que reside
num corpo falho, sagrado e pecador
que ainda insiste a saber antes
mesmo antes do que se vive.
até que chega a hora de ver
que o pensamento sobre tudo
nada condiz com o realmente haver
tudo é ensaiado numa sala que eu nunca vi
todos eles são fantoches de uma história que rege o mundo
onde a gente nasce devedor
da vida que foi dada pelo dono disso tudo.
tudo nos toca, mas a gente sente pouco.
tudo nos olha, mas a gente faz de louco.
o tudo nos ouve e a gente fica surdo.
pra qualquer voz que vem de fora, além do nosso mundo.
tudo é a cabeça que aqui existe.
é a alma que reside
num corpo falho, sagrado e pecador
que ainda insiste a saber antes
mesmo antes do que se vive.
4 de mai. de 2017
Espero estar errado
Hoje eu acordei cedo e pelo quinto dia seguido
esperando que o universo me inquiete
do jeito que minha alma quer.
Na sucessão dos dias
e de uma rotina que me faz flutuante nada me faz cair
Um pena.
Tudo igual.
Não difere em nada do que eu imaginava ser
a vida de 20 e poucos sem pretensão.
A simplicidade das coisas me deixou apaixonado
e partiu me deixando também carente.
Talvez a crise constante ainda seja a faísca de inquietação que restou,
mesmo eu ando desconfiando que sua vida será curta.
Espero estar errado.
14 de mar. de 2017
É normal pra gente
O padrão normal da coisa não faz muito parte da gente. Se eu te olho de um jeito diferente você vai achar normal. Afinal, tu não suporta a normalidade da coisa. A gente se embaraça na entrada do banheiro, na cama, na vida. Ninguém vai nos entender. E pra te falar a verdade acho bem normal que isso aconteça. A gente brilha um para o outro. A gente se acha no tom de voz. Nosso corpo não tem nada de um só. É meu, mesmo que seu. É seu, mesmo que meu. Duas carnes, nada de uma só. Um para o outro. Voz de fim de noite, abraço de despedida no carro, conversa amena rotineira e uma vontade danada de manhã de domingo chuvoso. Celular tocando, uma música. Clima frio, só no ar. Escuro pra gente encandear com a gente. A gente é um tudo ou nada diário, sem exageros. Encaixe de boca, vida e corpo. Um para o outro. Sem saber se isso é mesmo normal. Deixa que digam. Deixa é que a gente.
18 de out. de 2016
Jovem acaba de assumir tudo para uma moça de cabelos escuros
E quando pintar a ideia, sou todo ouvidos. Deixa só eu te falar algumas coisas antes. Esse lugar aqui é novo pra mim e acho que metade das coisas que te falei até agora foram fruto de algumas pesquisas que fiz na internet hoje a tarde. Eu não tenho a menor ideia de como funcionam os critérios para o prêmio Nobel, tampouco lembro a faixa 3 daquele álbum do Velvet Underground. mas olha, deixa só eu me explicar. Eu tô fazendo o possível pra que esse nosso encontro aqui não seja apenas a música do cara de cabelo estranho ali tocando, você mexendo no cabelo a toda hora que pergunto algo ou mesmo eu sem nem saber o que perguntar. Quero que isso aqui seja um momento especial. Lá fora, na entrada no bar, tem uma placa luminosa com a frase “Entre e você não vai ser arrepender” . Achei uma estratégia de marketing fantástica, só não sei se vai funcionar aqui. Ai ai ai…
Já faz um tempo que pedimos a bebida, não acha? Ainda nada. Ah, lá vem ele ali. Essas mesas redondas, além de pequenas, estão localizadas nesse ambiente meia luz. Isso tá dificultando um pouco o meio desviar de olhar. Eu tento ficar olhando apenas para a senhora do balcão, para o cara que está tocando ou para aqueles dois caras de terno e gravata conversando e mostrando coisas no telefone um para o outro. Vou tentar focar aqui.
Já vamos? Tão cedo? O convite é sério? Tudo bem, lá vou eu, minhas duas pernas trêmulas e a certeza que não vou poder mudar o olhar nas próximas horas. Sorte pra mim!
6 de out. de 2016
Primeiros dias
Nas primeiras horas da manhã ela acordou. Talvez 6 ou 7 horas, não sei ao certo. Olhou para o lado e percebeu que estava sozinha. Fez um esforço para piscar mais um pouco, lubrificar os olhos e abrí-los de vez. Pegou o celular que estava debaixo do travesseiro , olhou, curtiu 3 selfies e largou. Ficou ali olhando para um teto que surpreendia com tantos contornos, mesmo que ela estivesse com a cabeça longe e, por vezes, vulnerável sem teto algum.
Depois de alguns minutos, ela levantou da cama e foi direto para o banheiro. Na pia, duas escovas e o sabonete que ele usava para tirar a barba. Ela se olhou nos espelho, molhou o rosto e começou a fazer algumas coisas na cozinha. Tirou 6 roupas que estavam já lavadas na máquina, afastou duas caixas de coisas dele da frente da geladeira, deu mais uma olhada no celular, e pegou duas fatias de queijo. Cortou um pão, colocou o queijo dentro e sentou sozinha pra comer com um suco de caixinha que também pegou na geladeira. A mesa quadrada parecia maior. Sentou sozinha e no espelho da parede estava a sua única companhia, ela mesma.
Terminou de comer, extendeu a roupa que tinha tirado da máquina e foi tomar banho. Colocou pra tocar a música deles é se ensaboou sozinha com a cabeça e o pensamento secos e áridos. Nada mudou.
Depois de tudo, trocou de roupa, caprichou na maquiagem, deixou uma mensagem de bom dia para a amiga no celular e foi até a porta. Ao abrir, olhou para trás e viu que a chave dele estava em cima do rack. Abaixou a cabeça , enxugou a lágrima e fechou a porta. Desceu no elevador tentando entender ainda como ia ser mais um dia.
Chegou, térreo, um passo a frente e lá foi ela.
Sorte.
Tem muita coisa lá fora
11 horas da manhã . Numa Ponta Negra de pouca gente, mesmo com o feriado, saio da barraca 08 em direção ao carro. Bati os pés na primeira calçadinha depois de 6 degraus. Começo a subir a maior delas. 21 degraus - meu chute entre 15 e 21- talvez ajude a baixar essa barriguinha que tô acumulando. Me enganei. Terminando, olho pra frente e vejo uma mulher já bem adulta com dois filhos debaixo de um guarda-sol. Percebi que um deles, com esforço imenso segura o guarda-sol. Uma criança no braço dela de aparentes meses de vida e um bravo segurança do guarda-sol com seus 7 ou 8 anos, no máximo agora acontecem na minha vida. Ali debaixo 4 caixas de isopor com a placa: Água Mineral: R$ 1,00. Peço uma água. Duas, por favor, disse minha esposa. Na hora de pagar, ouço de uma vendedora já de olhos semi abertos frente a luz do sol que "não tem troco, moço. Mas eu vou conseguir, espera aqui".
E lá foi ela descendo a escada num passo rápido que me assustou. O bebê ainda estava nos braços. Fiquei sozinho com o guerreiro do guarda-sol. Percebi que não havia nenhum apoio e era ele mesmo que estava segurando contra o vento. O mastro estava entre as caixas de isopor, não havia apoio nenhum. Fiquei ali e perguntei o nome dele. Lucas, me disse que estava com fome e que a sua mãe não ia demorar. Minha esposa foi para o carro. Numa olhada para trás, Lucas grita que vai procurar sua mãe e que volta já. Pediu que eu segurasse o guarda-sol. Aí lá estou segurando um guarda-sol sozinho numa Ponta Negra feriada. O primeiro, o segundo e o terceiro cliente chegam e vendo as águas prontamente dizendo "se tiver trocado, ajuda muito" . Assumi o papel durante possíveis 5 minutos.
Depois de 5 águas vendidas, vejo aquela mulher quase correndo subindo uma escadaria com um olhar preocupado e seguida por Lucas. Ela me olhou e me respondeu decepcionada que não conseguiu trocar o dinheiro. Relevei o problema e entreguei o "meu apurado" pra ela. Lucas me olhou e perguntou onde eu morava, disse que ia na minha casa deixar o troco. Eu ri, me despedi do trio e fui para o carro.
É.
Tem muita coisa lá fora, tem muita gente, sabe? Tudo acontecendo ao mesmo tempo, tudo.
SOBRE UMA IDA A NOVA CRUZ-RN
São cinco horas da tarde de sábado na beira do Rio Jacú, na cidade de Nova Cruz, agreste do Rio Grande do Norte. Sentado com Seu Valter, um sertanejo daqueles que dá orgulho e alegria de estar perto. Seu Valter tem 59 anos, pai de 11 filhos e avô de 4 diamantes, como ele diz. Oriundo do Juazeiro, cidade do interior do Ceará, tem na agricultura seu meio de vida, mas nem sempre foi assim. Um dos seus maiores orgulhos, sua história, será contada nas próximas linhas com todo o cuidado do mundo para que chegue ao máximo de delicadeza que ela merece.
Seu Valter é muito bem casado com Dona Lúcia. Uma união de 42 anos que vem desde a infância. Bate no peito diversas vezes pra dizer que continua amando aquela mulher como se fosse a primeira vez, “o que eu sinto por aquela mulher num é as cachorrada que tem hoje não. Aqui é amor até morrer”, confessa ele algumas vezes durante a conversa. Seu Valter nem sempre foi agricultor. Já foi padeiro, pedreiro, serigrafista, vendedor de tapioca nas ruas de Nova Cruz e juíz de paz. Aos 24 anos, tentou vestibular pra o curso de teologia na cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Tentou 3 vezes e não conseguiu. Voltou para o agreste para cursar datilografia, mais um orgulho do seu passado, “com direito a padrinho e tudo na formatura”, disse ele batendo no peito. Tem nas mãos as marcas do roçado, na camisa entreaberta um brozeado do sol forte do sertão e um chapéu característico. Seu Valter mora praticamente a beira do Rio Jacú.
Numa casa de fachada azul e uma cerâmica “da capital” , me acolheu pra um café com pão, tapioca e bolo depois que anoiteceu. Estou esperando a hora da missa, quero ir com ele para a celebração. Enquanto isso, vamos conversando. Entre um assunto e outro, ele me pergunta se eu sou PT ou PSDB, se eu sou Dilma ou se eu sou Aécio. Eu, confuso com a pergunta, sou interrompido antes da minha resposta quando ele diz “nem precisa me responder. Esse país tá uma bagunça tão grande que ninguém tem mais certeza de nada né?”. Uma das respostas mais sábias que ouvi sobre a situação do país no últimos dias. Depois do café, fomos para a calçada da sua casa e numa cadeira de balanço ele me conta de uma das suas especialidades, a previsão do tempo. “Olhe, tá vendo aquele lado aquele lado ali?” Ele aponta para o lado esquerdo da rua. “É de lá que vem a chuva. Se ficar meio cinzazinho eu já sei que vai chover.” Pergunto a Dona Lúcia da calçada se dá pra confiar e ele me responde que Seu Valter só não é rico porque não quer, devia trabalhar na Globo. Sua maior alegria é ter a família reunida, principalmente nas festas de final de ano. Disse que no Natal a sua casa num dá nem pra andar direito e aí sobra um espaço lá atrás que também lota quando o seu sobrinho sanfoneiro vem. “Vai até de manhã”, segundo ele. Seu Valter guarda uma satisfação com a vida e um agradecimento aos céus a cada resposta que me dá. Em todos os momentos ele olha pro céu e finaliza as respostas com um “graças a Deus” sincero. Três cateterismos, duas cirurgias e pedra na vesícula só fizeram ele ser um Cristão ainda mais fervoroso e agradecido. Perdeu seu pai assassinado pela cangaço que imperava naquele lugar décadas atrás e guarda até hoje uma camisa do “seu mestre” cravada de bala.
Ele interrompe a conversa pra tomar banho enquanto Dona Lúcia vai reunindo imagens, dois terços, um pra ela e pra Seu Valter e uma foto de Nossa Sra. das Graças. Tudo pra levar à missa. Na parede, uma foto de Seu Valter com uma farda militar. Quando ele volta do banho e já começa a nos apressar pra ir à Igreja, me responde sobre a época que serviu ao exército brasileiro. “Negócio muito sem futuro. Eu nasci pra rir e ver meus filho crescer. Num foi pra matar gente não”, destacou ele parando a caminhada na calçada de casa. No caminho pra Igreja, seu Valter sai cumprimentado cada vizinho. Um aceno a cada 30 segundos. A subida é grande e chegamos à Igreja em 15 minutos. Eu suado e cansado e seu Valter de mãos dadas com Dona Lúcia de joelhos no banco do lado. A missa dura 40 minutos. No final, seu Valter decide levar “o menino que está entrevistando ele” para apresentar aos amigos. Visitamos 5 casas e vi diversos Valters e Lúcias por onde passei. Ricos em simplicidade, acolhimento e sinceridade em tudo o que falavam. Do aperto de mão no cumprimento até o adeus de “volte sempre e que Deus te acompanhe”. Conversamos por mais dez minutos na calçada e fomos interrompidos por Dona Lúcia dizendo que já estava na hora de dormir. “Valter, amanhã tem roçado logo cedo.” Seu Valter me olha e pergunta se posso visitá-lo outro dia. Digo que farei o possível e que vou ligar avisando antes. Ele me responde “olhe, meu filho, eu vou ficar muito feliz se você voltar, mas eu vou ter ir agora. É ela que manda. A gente nem acorda tão cedo, mas se eu não for me agarrar com ela na cama ela fica fumaçando. Num fique com raiva não, viu?” Eu praticamente ordenei que ele entrasse em casa e agradeci. Saí em caminhada pelas ruas com cheiro de noite e com o desejo de simplicidade e amor daqui pra frente.
30 de set. de 2016
Tem um bêbado falando, gente! Um bêbado.
Eu ando sim meio bêbado. Daqueles de andar apoiado pelas paredes. Mesmo sem entender bem o que está acontecendo ao redor, apenas sorri. É desse jeito que eu ando - ou cambaleio - não sei bem ao certo. Vou vivendo do que me leva, não do que me move. Do que me ilumina, não do que me reflete. Ando bem embriagado de mim mesmo. Viciado no meu mundo. Mesmo que ele seja só meu. Se eu te falo tudo, não iria entender nada. Pra mim faz todo o sentido e isso sei lá se é bom. Agora está sendo tranquilizante, mas não sei se isso tem muita coisa de bom. Olho pra frente a a luz que vejo está bem distante. Não sei consequência do meu embebedar ou se é que isso me deu um jeito verdadeiro de ver o que vem pela frente. Não sei bem se aquilo tudo ali na frente é ruim pra mim, mas sei lá, estou bêbado. É um bêbado falando, gente. Segue aí tua vida, tá?
Garçom, vai fechar agora ou posso ficar mais um pouco?
6 de set. de 2016
batida
sem ar,
nirvana e catarse.
tocante
com toque
ou só olhar.
tom,
de voz
no rádio,
na viagem.
vermelho,
batom,
coração,
situação
e sentimento.
sorriso, em dia, noite,
no toque.
num vôo
sem sair do lugar
me levando
pra longe
pra ela
pra sempre
ou até viver tudo
pra dar saudade.
volta.
E me responde
com teu verso.
teu cabelo
teu perfume.
teu averso.
volta.
2 de set. de 2016
Sobre uma chuva
Quando eu tinha alguns poucos anos de início adulto ela foi me mostrando que havia bem mais chuva que a aridez do meu caminho mostrava. Tocava uma música na fala e me deixava viciado num toque de olhar, de mão, de cheiro e até de ausência. A gente era céu e nuvem acima do chão. Certo dia me falou dos antigos amores, dos próximos dias desconhecidos e, eu, aprendiz de amar, encantado pelo que aquilo tudo me provocara. Sentamos a mesa, ela me abraçou no olhar e perguntou qual o sabor que eu queria. Marguerita! Disse para o respeitador garçom que chegou a mesa. Entre mãos ansiosas por se encontrarem e o meu tremer de perna por termos nos encontrado, o meu rosto pacífico escondia a guerra que eu tinha aqui dentro entre milhares de pensamentos. O caos na cabeça fazia sentido e tinha rumo, curioso isso. Depois de um tempo saímos dali como um. Nos despedimos com um beijo e trocamos presentes. Ela ficou com meu beijo e eu com a ânsia de uma nova presença.
Só tenho a agradecer por mais um destino para eu viajar aqui dentro quando eu quiser.
//Que necessidade é essa que temos em nos falar o tempo inteiro? Nunca vivi isso.
/Nem eu
/Louco não é?
//É... intrigante também...uma necessidade mesmo...
/Necessário e tão bom...
/Intrigante também... Confesso...
//E é louco porque dá saudade.
/Ia te falar isso ontem
/Saudade mesmo.
23 de ago. de 2016
Viva o verso
O versos abre porta e janela pra quem sabe voar. Pra quem não sabe mais o que dizer e sente demais. O verso é grito e catarse do real. O verso é vento que não tem obrigatoriedade de volta. Um respiro inspirador de pureza. Um delírio para sobreviver na loucura que é viver sem ele. Viva o verso. Por favor, viva o verso. Deixa o verso viver, grita, faz o que quiser. Mas por favor, viva o verso.
19 de ago. de 2016
17 de ago. de 2016
Escape
Ela continua ali com aquele jeito de mar na roupa e sol no sorriso que esconde uma luz inspiradora. Daqui do meu canto consigo apenas imaginar tudo. Ela me falou dos amores que teve, dos sonhos que a movem e até das aventuras que pensou viver e viveu. Como expectador - e apenas isso - me coloquei como ouvinte atento à voz, à boca e a tudo que ouvia e vi. Tudo que me passava pelos diversos sentidos. Sei lá se sou merecedor, errante, um potencial arrependido ou tolo encantado com o belo como sempre fui. Escapei ao todo que vivia naquele momento, mas ainda ficou aqui a certeza que poderia ter vivido algo bem mais lento, a ritmos cadenciados de uma história que tinha tudo pra inspirar esse texto a um sentimento bem maior.
Escapei.
27 de jul. de 2016
Revisitação 2
Acabei de receber sua mensagem. Li agora. Estava resolvendo algumas coisas do trabalho e não consegui responder no momento em que vi. Enfim, desculpa. Eu queria entender alguns pontos seus primeiro, depois explico os meus. Vi que você falou de inúmeros momentos nossos. Noite, dia, quente, frio, sós e com mais algumas pessoas ao redor. Lembra da saudade que te falei na carta anterior? Ela ainda continua aqui, acredita? É curioso como a lembrança tem perfume e o tom da tua voz dominando tudo isso. No jeito como fala o meu nome. Esse é o principal passaporte para me transportar para tudo aquilo que vivemos anos atrás. Hoje percebo que mudou muito. Uma conversa diferente, um jeito mais mulher que não esconde em nada a menina que você é. Nada surpreendente. Nada além.
O dia do lago a noite, da festinha, do teatro, do cinema e de um montão de momento que recordo apenas do que sentíamos. Qualquer lugar. A gente era bem infantil naquele tempo não é? Eu te vi beijar um dos meus melhores amigos e não contive a risada, acredita? Foi incrível aquilo ali. Tinha um bilhetinho por vez, uma conversa frequente e a vontade de estar perto um do outro que só chegou depois de muito tempo. Tempo…Essa coisa de passar…horas… os momentos…os anos…e a vontade. Não, essa não passou. Como disse naquela carta anterior, eu não tenho a menor ideia do que realmente sinto hoje ao, de certa forma, ter você mais próxima.
Não sei onde você estará quando ler esse texto aqui, mas deixa eu te pedir uma coisa? Dá um sorriso nesse ponto, ok? Te ajudo, vamos contar. 1…2…3..e…
Vai, por favor, não seja chata…
1…2…3…e…
AGORA!
Olha ao redor.
Se alguém tiver achado estranho, ótimo. Valeu a pena. Se você tiver feito isso discretamente, vou entender como uma concordância e reciprocidade de todo o sentimento que escrevi aqui. Se nada aconteceu, sem problemas, tentamos numa próxima vez.
Esse é o quarto parágrafo desse escrito aqui que tinha a pretensão de ser apenas um “ saudade de você. Podemos nos encontrar?” . Acho que é melhor eu terminar por aqui. Consegui te mostrar alguns pontos, lembrar bons momentos e ainda - pelos tentei - te fiz sorrir. Temos uma conversa aqui, como antes.
Lembra que eu lembro tá? Voz, perfume e sentimento.
Me fala do que sente, por favor.
FIM
15 de jul. de 2016
Revisitação
Oi,
Estou te enviando essa carta pra falar algumas coisas. Claro, né? Ou seria pra imaginar que algo que vai de mim pode novamente tocar em você? Ué, pode ser também. Bom, continuando...
Hoje eu descobri que finalmente você e ele terminaram. Antes que eu inicie com o discurso inerente a qualquer contato pós-trauma amoroso, quero deixar aqui os meus reais sentimentos, os verdadeiros, depois entro nessa aí.
Eu tenho certeza absoluta que a motivação de tudo ter acabado foi você. Essa sua mania - ou jeito de ser - de sempre querer que o mundo grite o seu nome intercalando entre um abraço que ele possa te dar nunca te fez bem. Eu sabia disso há muito. Lembra daquela vez que estávamos saindo do Teatro e te falei que eu estava apaixonado por você? Eu me recordo perfeitamente da sua resposta em face que me dizia: eu sei que sim. Pois é.
Ele não deve ter conseguido suportar esse seu hiper-eu tão poderoso. Outra coisa que eu queira deixar bem claro aqui é que eu tenho saudade de você. E por mais que essa frase possa soar contraditória frente ao tom que iniciei esse texto, é a mais pura verdade. Ontem, caminhando na rua depois de um dia cheio de trabalho, me deparei com uma mulher muito parecida contigo. Meu coração agiu estranho, tomei um choque do centro do meu corpo percorrendo todo ele por alguns segundos e me convenci que não era você. Não se assuste, isso sempre acontece. Eu acredito sim que tenha ficado algo aqui. Mas basta, não vou alimentar esse seu ego aí, melhor surrar minhas verdades tão absolutas frequentemente. Não me condene por isso.
Estive pensando sobre o que aconteceu entre a gente. Sei lá se era amor, paixão ou qualquer dessas obviedades tão faladas. Eu, sinceramente acho isso um saco. Essa de ficar qualificando coisas, pessoas e sentimentos me dá uma canseira danada. Daí eu nunca consegui formular bem o que aconteceu. Foi por muito tempo? Foi. Teve intensidade, descobertas e um pouco de infantilidade das duas partes. Aliás, da minha pode acrescentar aí uma inocência que dá uma saudade da porra. Acho que foi isso que aconteceu. Viu como não dá pra dizer com uma palavra só?
Bom, a verdade é que te vi hoje, nos falamos e eu não consigo mais parar de pensar no movimento dos seus lábios, no seu ajeitar de cabelo e do tom da sua voz pedindo a conta ao garçom. Nem do seu abraço de poucos segundos acompanhado do mesmo perfume que usava há 10 anos.
Eu confesso que não sei bem o motivo de estar te escrevendo isso aqui. Mas eu tinha que deixar claro que aquele encontro não foi só uma revisitação de passado em poucas conversas sobre histórias antigas, mas uma nova forma de enxergar o que realmente me toca. E te agradeço por isso.
Ah, não posso esquecer.
Força, você encontrará um novo amor, se for, claro, da sua vontade. Se não aconteceu, é pelo simples motivo que não era pra ser. Sinto muito mesmo, bola pra frente. Levante a cabeça e se ame, muito. Concentre-se na sua carreira, nos seus projetos e por aí vai. Força. E precisando, estou aqui sempre, você sabe.
FIM
Estou te enviando essa carta pra falar algumas coisas. Claro, né? Ou seria pra imaginar que algo que vai de mim pode novamente tocar em você? Ué, pode ser também. Bom, continuando...
Hoje eu descobri que finalmente você e ele terminaram. Antes que eu inicie com o discurso inerente a qualquer contato pós-trauma amoroso, quero deixar aqui os meus reais sentimentos, os verdadeiros, depois entro nessa aí.
Eu tenho certeza absoluta que a motivação de tudo ter acabado foi você. Essa sua mania - ou jeito de ser - de sempre querer que o mundo grite o seu nome intercalando entre um abraço que ele possa te dar nunca te fez bem. Eu sabia disso há muito. Lembra daquela vez que estávamos saindo do Teatro e te falei que eu estava apaixonado por você? Eu me recordo perfeitamente da sua resposta em face que me dizia: eu sei que sim. Pois é.
Ele não deve ter conseguido suportar esse seu hiper-eu tão poderoso. Outra coisa que eu queira deixar bem claro aqui é que eu tenho saudade de você. E por mais que essa frase possa soar contraditória frente ao tom que iniciei esse texto, é a mais pura verdade. Ontem, caminhando na rua depois de um dia cheio de trabalho, me deparei com uma mulher muito parecida contigo. Meu coração agiu estranho, tomei um choque do centro do meu corpo percorrendo todo ele por alguns segundos e me convenci que não era você. Não se assuste, isso sempre acontece. Eu acredito sim que tenha ficado algo aqui. Mas basta, não vou alimentar esse seu ego aí, melhor surrar minhas verdades tão absolutas frequentemente. Não me condene por isso.
Estive pensando sobre o que aconteceu entre a gente. Sei lá se era amor, paixão ou qualquer dessas obviedades tão faladas. Eu, sinceramente acho isso um saco. Essa de ficar qualificando coisas, pessoas e sentimentos me dá uma canseira danada. Daí eu nunca consegui formular bem o que aconteceu. Foi por muito tempo? Foi. Teve intensidade, descobertas e um pouco de infantilidade das duas partes. Aliás, da minha pode acrescentar aí uma inocência que dá uma saudade da porra. Acho que foi isso que aconteceu. Viu como não dá pra dizer com uma palavra só?
Bom, a verdade é que te vi hoje, nos falamos e eu não consigo mais parar de pensar no movimento dos seus lábios, no seu ajeitar de cabelo e do tom da sua voz pedindo a conta ao garçom. Nem do seu abraço de poucos segundos acompanhado do mesmo perfume que usava há 10 anos.
Eu confesso que não sei bem o motivo de estar te escrevendo isso aqui. Mas eu tinha que deixar claro que aquele encontro não foi só uma revisitação de passado em poucas conversas sobre histórias antigas, mas uma nova forma de enxergar o que realmente me toca. E te agradeço por isso.
Ah, não posso esquecer.
Força, você encontrará um novo amor, se for, claro, da sua vontade. Se não aconteceu, é pelo simples motivo que não era pra ser. Sinto muito mesmo, bola pra frente. Levante a cabeça e se ame, muito. Concentre-se na sua carreira, nos seus projetos e por aí vai. Força. E precisando, estou aqui sempre, você sabe.
FIM
8 de jul. de 2016
O que escrevi sorrindo, saudoso e satisfeito
Mal sabe ele o que o toque das nossas bocas nos mostrou. Mal sabe ele que a calada da noite era barulho gritante dentro ou fora de qualquer lugar que estivéssemos juntos. Ele não faz ideia dos caminhos que percorriam mãos, pensamentos, braços, desejos, línguas e a gente. Por onde andávamos existia luz quando a gente tivesse vontade, mas ficava a penumbra pela mesma condição quente de algo existir ali. Da voz modificada no telefone a conversa sem novidade alguma num fim de quarta-feira cansativa. Ele não tem ideia disso. Eu duvido muito que o tudo ou nada ainda exista. E tenho certeza que isso virou uma escolha seca matando a dúvida antes tão frequente e condutora. Sem arder, sem doer, sem poucas vozes, sem o gosto salgado de uma transpiração salivante compartilhada de corpo inteiro. Mal sabe ele. Mal sabe ele que estou te escrevendo isso aqui, mal sabe ele que é pra você, que é pra ele, que é sobre a gente. Que tenha permanecido tudo aí contigo, que não haja esquecimento. O que pra você é lembrança pra mim é a realização de saber ter vivido. Que sejam nossas vidas. Ele nunca vai saber.
7 de jul. de 2016
Me convenceu a fantasia
O vôo talvez não esteja sendo possível e a poesia grita, mesmo presa. Ela , passarinho por natureza, caminha a passos curtos de uma estrada quente que escolheu ao virar a direita das escolhas que não saem do chão em momento algum. O barulho das pedras em contato com o seu andar arrastado contrastam com som dos pássaros que a rodeiam. A caminhada é longa e no horizonte não existe nada por enquanto. Uma sandália simples, um vestido de mar e uma ânsia pelo próximo sorriso.
Ela me contou que a fantasia a fez escolher uma nova estrada e não deu conta das barreiras do caminho depois. Ficou com ela apenas a saudade, a fantasia não. E era amor. A placa era de sentimento convencendo a seguir pelo caminho das pedras. A dança antes constante, leve e rica de cores agoniza dentro dela. A vontade é lágrima e a saudade é mais uma que cai junto no rosto.
Eu, que sei das inúmeras luzes do seu sorriso, pedi pra caminhar junto, dar a mão, conversar sobre a próxima pedra que ultrapassaríamos e dizer também do amor que tive. Falar dessa fantasia persuasiva que me colocou agora junto dela. Entre um respiro e outro - ou mesmo um sorriso de canto - vamos percebendo que dá pra seguir sonhando. Enxergar a imensidão de peito aberto pra dançar mais uma vez e não prender-se ao que nos eleva sem suporte para uma eventual queda.
Se uma lágrima cair mais uma vez, me olha e sorri. O que eu te mostrar depois disso pode te ajudar, ou fazer chorar mais um pouco.
Vem, vamos continuar.
22 de jun. de 2016
A cada passo
Quando eu caminhar mais devagar, não se preocupe, estou carregando os meus sonhos com cuidado. Enquanto caminho, vou tomando cuidado onde piso, se piso, se saio do chão ou mesmo se tenho mesmo algo concreto o suficiente pra durar toda a caminhada. Mesmo que surdo e cego por vezes na caminhada, ouço pássaros, som de vento no meu rosto e um algumas vezes um silencio ensurdecedor de paraíso. São os meus sonhos que ando carregando. Em amor e vontade, são os meus sonhos.
Quando eu caminhar mais devagar, me abraça, vem junto, toca a minha mão, diz que me ama ou faz qualquer coisa que dê mais ritmo a minha lenta caminhada. São os meus sonhos, caramba.
Se eu parecer louco por desejar caminhar lentamente e algumas vezes sozinho, por favor, não me julgue. Eu só queria levar meus sonhos com cuidado.
Vou continuar.
15 de jun. de 2016
Mas a porta ainda está aberta
Há dias tento me colocar na frente da tela, do papel, do guardanapo, do bloquinho cinza do mesa da minha mesa do trabalho ou da minha casa e simplesmente não consigo. É curioso como essa coisa me tomou e eu simplesmente decidi pra mim alguns dias de mais futebol, música, cerveja, amigos e debates que vão da filosofia grega até a falta de noção da menina da oitava série em jogar um caderno no ventilador. Vê se pode isso. Tô preferindo convites para conversar besteiras que se dissolvam levemente que qualquer outra complexidade. Sei que isso vai durar só um tempo, bem curto, aliás. Vou rir do filme idiota, vou xingar o juiz do jogo, vou julgar se o jogo vale a pena, vou filmar sorrisos idiotas e, sei lá, vou ver gente que não vejo há tempos. Se eu precisar resgatar algo passado, claro.
Vou ouvir músicas das rádios FMs mais populares, comentar a novela e até ficar puto com qualquer personagem que me decepcionar. Vou perguntar ao porteiro como estão as coisas, se ele curte trabalhar ali, qual time que ele torce e o que ele fazia antes de trabalhar na portaria do meu prédio. Vou trazer pra perto quem viaja comigo, mesmo que sem sair do lugar. Vou no mercado escolher algo pra comer durante o filme ou nem comprar nada, só andar mesmo. Aliás, vou fazer isso no shopping, no Parque, na rua, na biblioteca e no bairro que morei quando era criança.
Quando eu fizer isso tudo e procurar se algo mudou, eu escreverei mais alguma coisa.
Depois eu volto.
1 de jun. de 2016
Aos carrascos da poesia
Que a poesia se permita.
O mundo que se renda
E que a gente aprenda
Como é que se faz.
Que sejam tolos os aseriados.
Os desavisados
Do poder que ela tem.
E que a gente ria
De um tempo difícil.
Em que a poesia
Não se permitia agir.
Que façam cacos.
Os mal pensamentos.
Os poucos elementos
Que insistem em nos conduzir.
Se eu fosse
Eu nunca sonhei em ser jornalista, nunca sonhei em ser um montão de coisa que eu me permiti ser até hoje. Eu queria ser ator de rua. É, eu sei que isso é louco aos olhos. Mas eu queria ser artista de rua. Queria algo de malabares, uma cena na calçada, cantar uma música para senhora que ia passar segurando um saquinho de pão ou recitar um poema para o cara de terno e gravata que via todos os dias passando no Centro da cidade. Eu queria ser artista. E talvez beber no final da noite. É, beber mesmo. Eu queria o delírio de se permitir ser o que quiser, falar ao vento e ser ouvido algumas vezes. Coisa boa é ressoar, nem que seja aqui pra dentro. Ah, como eu queria ser artista…Sorrir meio lacrimoso e estender os braços num abraço ao vento. Poder se embebedar de poesia, de rimas e tudo o que me rodeasse de bom e mal também, por que não?
Queria ser o parceiro da bailarina na rua, o dançarino da trupe, o mágico da companhia ou mesmo o locutor do circo. Eu queria mesmo é ser artista. Aí o mundo ia fazer mais sentido, ia ser mais fácil de entender, de assimilar, de viver… Por vezes eu penso que todo mundo queria ser algo assim. Chutar o mundo, jogar a vida pra cima, se jogar lá do alto e gritar. Não permitir a poesia deveria proibido. Não permiti.
Idiota.
Quem vai explicar aos lençóis?
Ela tentou, ela tentou muito. Não deu, não conseguiu mais. A discussão foi bem intensa. Depois de alguns anos juntos, eles sentaram pela enésima vez naquele sofá para mais uma vez discutir. Longe de tentar uma solução, ela já não mais raciocinava se ia ficar tudo bem ou não. O cansaço a deixou cega para olhar além de um fim. Acabou. Os quadros de belas palavras na parede estavam achando estranho aquela fase. Eles que há tempos enxergavam o amor ali sendo consumado na sala, no chão, naquele mesmo sofá. Acabou. O quarto antes escolhido para ser o futuro ambiente para o “nosso fruto de amor” - que virou uma espécie de escritório para os dois - também não entendeu nada. “ Então, não vou mais servir pra nada?” , pensou ele num delírio que se assemelhou a resposta do deixado. As fotos, a mesa do café da manhã intercalado por pequenos beijos, do almoço para receber os amigos e a família e do jantar pra quebrar a rotina com um vinho ao som de uma baladinha qualquer. Estava todos sem entender nada.
Ela foi ao quarto, pegou sua mochila jeans e foi enchendo com as suas coisas. Caia uma lágrima, vinha um esmiuçar de arrependimento e um filme passava na frente dos seus olhos enquanto ela fazia tudo aquilo. Com as mãos no rosto e cotovelos apoiados nas coxas, ele continuou na sala. E ninguém falou nada aos lençóis da cama, ninguém deu o mínimo de satisfação pra eles. Ela foi até a porta, olhou pra trás, olhou pra ele e ouviu se era daquele jeito mesmo. Baixou a cabeça, abriu a porta com o seu chaveiro do Cristo Redentor e saiu. Acabou, não deu mais.
Ele foi até o quarto, passou algumas horas contemplando o nada do teto e tentando se justificar aos lençóis sem saber bem o falar.
Levantou, fechou a porta e permaneceu por mais algumas horas.
31 de mai. de 2016
Delírio
A gente se encontrou e eu sei lá o que me aconteceu. Eu estava gritando por dentro, tremendo por fora, chorando com o corpo inteiro. Eu sei lá o que me aconteceu. Deu vontade de morrer ali, de viver pra sempre, de abraçar o mundo, de correr na rua. Olha, eu confesso que estou tentando descrever o que ali aconteceu. Tinha muita gente ao redor e eu só consegui enxergar a gente, eu beijei a sua boca. Juro, eu beijei a sua boca. Dá pra imaginar a loucura que é isso? Depois de ensaiar o que dizer, o que fazer, o que não dizer e o que era condenável na opinião do meu melhor amigo. Nós nos beijamos e fechei o olho pra mergulhar sem mais nada ouvir. Sentindo apenas a sua mão carinhosa na minha nuca. Era muito, mas muito perigoso estar ali contigo. Muito mesmo. Mas olha, que sensação incrível. A gente se encontrou, se beijou, deu dois abraços e uma despedida que confesso me deixou um beijo. Um beijo, imaginou isso? Tudo aconteceu e não mais se repetirá. Tenho tudo aqui comigo.
Obrigado por tudo. Nos beijamos.
4 de mai. de 2016
A última música
Só
assim mesmo pra você me olhar nos olhos de verdade. Na cura do tempo e dos
acontecimentos. Só assim pra que eu ouça a música que esperei anos pra ouvir.
Num palco bem improvável é verdade. Esse banco de praça aqui em nada se
assemelha às vezes que esperei um olhar sincero precedido de um beijo num
despedir na frente da minha casa. No som do carro tinha música. Já se passou
muito tempo. E nessa lacuna que ocupei com sentir muito e viver de uma forma
intensa, muita coisa mudou. Poucos sentimentos saíram, é verdade. Uns viraram
lembranças, outros repulsa e alguns outros oásis particulares onde eu vou a
hora que eu quiser. Ouvir de você que ainda existe algo é de certa forma
artístico. Daqueles tipos de obras que a gente imagina primeiro em sua
totalidade pra logo depois tocá-la. Quando toquei a obra eu já sabia exatamente
como ela seria. Mesmo que depois de tanto tempo. Não tive outra alternativa senão te
encaminhar ao teu caminho, acarinhar o teu carinho e abraçar o teu abraço com
sinceridade que o seu falar sincero merecia. Mas apenas isso. Que sigamos o baile. Mesmo em
outras casas, pistas. Agradeço pela música e pela dança de hoje.



