6 de out. de 2016

SOBRE UMA IDA A NOVA CRUZ-RN

São cinco horas da tarde de sábado na beira do Rio Jacú, na cidade de Nova Cruz, agreste do Rio Grande do Norte. Sentado com Seu Valter, um sertanejo daqueles que dá orgulho e alegria de estar perto. Seu Valter tem 59 anos, pai de 11 filhos e avô de 4 diamantes, como ele diz. Oriundo do Juazeiro, cidade do interior do Ceará, tem na agricultura seu meio de vida, mas nem sempre foi assim. Um dos seus maiores orgulhos, sua história, será contada nas próximas linhas com todo o cuidado do mundo para que chegue ao máximo de delicadeza que ela merece.
Seu Valter é muito bem casado com Dona Lúcia. Uma união de 42 anos que vem desde a infância. Bate no peito diversas vezes pra dizer que continua amando aquela mulher como se fosse a primeira vez, “o que eu sinto por aquela mulher num é as cachorrada que tem hoje não. Aqui é amor até morrer”, confessa ele algumas vezes durante a conversa. Seu Valter nem sempre foi agricultor. Já foi padeiro, pedreiro, serigrafista, vendedor de tapioca nas ruas de Nova Cruz e juíz de paz. Aos 24 anos, tentou vestibular pra o curso de teologia na cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Tentou 3 vezes e não conseguiu. Voltou para o agreste para cursar datilografia, mais um orgulho do seu passado, “com direito a padrinho e tudo na formatura”, disse ele batendo no peito. Tem nas mãos as marcas do roçado, na camisa entreaberta um brozeado do sol forte do sertão e um chapéu característico. Seu Valter mora praticamente a beira do Rio Jacú.
Numa casa de fachada azul e uma cerâmica “da capital” , me acolheu pra um café com pão, tapioca e bolo depois que anoiteceu. Estou esperando a hora da missa, quero ir com ele para a celebração. Enquanto isso, vamos conversando. Entre um assunto e outro, ele me pergunta se eu sou PT ou PSDB, se eu sou Dilma ou se eu sou Aécio. Eu, confuso com a pergunta, sou interrompido antes da minha resposta quando ele diz “nem precisa me responder. Esse país tá uma bagunça tão grande que ninguém tem mais certeza de nada né?”. Uma das respostas mais sábias que ouvi sobre a situação do país no últimos dias. Depois do café, fomos para a calçada da sua casa e numa cadeira de balanço ele me conta de uma das suas especialidades, a previsão do tempo. “Olhe, tá vendo aquele lado aquele lado ali?” Ele aponta para o lado esquerdo da rua. “É de lá que vem a chuva. Se ficar meio cinzazinho eu já sei que vai chover.” Pergunto a Dona Lúcia da calçada se dá pra confiar e ele me responde que Seu Valter só não é rico porque não quer, devia trabalhar na Globo. Sua maior alegria é ter a família reunida, principalmente nas festas de final de ano. Disse que no Natal a sua casa num dá nem pra andar direito e aí sobra um espaço lá atrás que também lota quando o seu sobrinho sanfoneiro vem. “Vai até de manhã”, segundo ele. Seu Valter guarda uma satisfação com a vida e um agradecimento aos céus a cada resposta que me dá. Em todos os momentos ele olha pro céu e finaliza as respostas com um “graças a Deus” sincero. Três cateterismos, duas cirurgias e pedra na vesícula só fizeram ele ser um Cristão ainda mais fervoroso e agradecido. Perdeu seu pai assassinado pela cangaço que imperava naquele lugar décadas atrás e guarda até hoje uma camisa do “seu mestre” cravada de bala.
Ele interrompe a conversa pra tomar banho enquanto Dona Lúcia vai reunindo imagens, dois terços, um pra ela e pra Seu Valter e uma foto de Nossa Sra. das Graças. Tudo pra levar à missa. Na parede, uma foto de Seu Valter com uma farda militar. Quando ele volta do banho e já começa a nos apressar pra ir à Igreja, me responde sobre a época que serviu ao exército brasileiro. “Negócio muito sem futuro. Eu nasci pra rir e ver meus filho crescer. Num foi pra matar gente não”, destacou ele parando a caminhada na calçada de casa. No caminho pra Igreja, seu Valter sai cumprimentado cada vizinho. Um aceno a cada 30 segundos. A subida é grande e chegamos à Igreja em 15 minutos. Eu suado e cansado e seu Valter de mãos dadas com Dona Lúcia de joelhos no banco do lado. A missa dura 40 minutos. No final, seu Valter decide levar “o menino que está entrevistando ele” para apresentar aos amigos. Visitamos 5 casas e vi diversos Valters e Lúcias por onde passei. Ricos em simplicidade, acolhimento e sinceridade em tudo o que falavam. Do aperto de mão no cumprimento até o adeus de “volte sempre e que Deus te acompanhe”. Conversamos por mais dez minutos na calçada e fomos interrompidos por Dona Lúcia dizendo que já estava na hora de dormir. “Valter, amanhã tem roçado logo cedo.” Seu Valter me olha e pergunta se posso visitá-lo outro dia. Digo que farei o possível e que vou ligar avisando antes. Ele me responde “olhe, meu filho, eu vou ficar muito feliz se você voltar, mas eu vou ter ir agora. É ela que manda. A gente nem acorda tão cedo, mas se eu não for me agarrar com ela na cama ela fica fumaçando. Num fique com raiva não, viu?” Eu praticamente ordenei que ele entrasse em casa e agradeci. Saí em caminhada pelas ruas com cheiro de noite e com o desejo de simplicidade e amor daqui pra frente.
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