Ela tentou, ela tentou muito. Não deu, não conseguiu mais. A discussão foi bem intensa. Depois de alguns anos juntos, eles sentaram pela enésima vez naquele sofá para mais uma vez discutir. Longe de tentar uma solução, ela já não mais raciocinava se ia ficar tudo bem ou não. O cansaço a deixou cega para olhar além de um fim. Acabou. Os quadros de belas palavras na parede estavam achando estranho aquela fase. Eles que há tempos enxergavam o amor ali sendo consumado na sala, no chão, naquele mesmo sofá. Acabou. O quarto antes escolhido para ser o futuro ambiente para o “nosso fruto de amor” - que virou uma espécie de escritório para os dois - também não entendeu nada. “ Então, não vou mais servir pra nada?” , pensou ele num delírio que se assemelhou a resposta do deixado. As fotos, a mesa do café da manhã intercalado por pequenos beijos, do almoço para receber os amigos e a família e do jantar pra quebrar a rotina com um vinho ao som de uma baladinha qualquer. Estava todos sem entender nada.
Ela foi ao quarto, pegou sua mochila jeans e foi enchendo com as suas coisas. Caia uma lágrima, vinha um esmiuçar de arrependimento e um filme passava na frente dos seus olhos enquanto ela fazia tudo aquilo. Com as mãos no rosto e cotovelos apoiados nas coxas, ele continuou na sala. E ninguém falou nada aos lençóis da cama, ninguém deu o mínimo de satisfação pra eles. Ela foi até a porta, olhou pra trás, olhou pra ele e ouviu se era daquele jeito mesmo. Baixou a cabeça, abriu a porta com o seu chaveiro do Cristo Redentor e saiu. Acabou, não deu mais.
Ele foi até o quarto, passou algumas horas contemplando o nada do teto e tentando se justificar aos lençóis sem saber bem o falar.
Levantou, fechou a porta e permaneceu por mais algumas horas.