31 de mar. de 2012

Lembranças suficientes


Quando você sair desse quarto para sempre, por favor, não toque em nada. Deixe os lençóis do jeito que estão. Com teu cheiro, tua marca e aquela parte do teu brinco que sempre fica. Ao sair desse quarto, não mova um só quadro da minha parede. Talvez eles possam me afagar depois com tudo o que viram aqui durante tanto tempo. Eu tenho medo deles serem conquistados apenas pelo seu toque, assim como eu fui. Quando sair, não ouse bater a porta. Quero o silêncio mórbido de seus passos caminhando pela última vez daqui. Antes tão lentos pela ânsia de ficar, hoje velozes pela ira sem lógica alguma. Quando sair, não volte! Não volte aqui, não voltei a agir assim e não queira mais a volta. Eu, hipócrita que sou, não quero mais. Não preciso mais da tua presença tão normal, fria, real e obrigatória. Afinal, os lençóis, os quadros, teu cheiro e as lembranças, me trazem todo o encantamento um dia perdido, mas que hoje tenho. Assim serei até minha morte, autossuficiente com suas lembranças. Feliz!
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