A desesperança veio hoje pela manhã. Tomou café comigo. E não partiu ainda. Ela parece querer algo que não tenho. Talvez nem eu mesma saiba. Cansei um pouco de esperar que os trilhos voltem. Eles são feitos de ferro e eu não. Dói ser carne. Mas não é isso que incomoda tanto... A dor maior é sabê-lo longe, diariamente e sem volta. Sinto como se tivesse passado um trem aqui dentro que levou todas as coisas importantes, algumas interrogações, os vícios, minhas xícaras de sol e me deixou vazia. Silêncio.
Está tudo fora do lugar e uma vontade gritante de fugir. Ele fica lá fora, muito mais lá do que aqui. A realidade incomoda. Dilacera. Rói. A realidade é como um copo de silêncio, quase inatingível. Não dá para ser feliz assim. São 27 invernos e uma certeza, é frágil demais existir. Somos como as caixinhas embarcadas em letras garrafais escrito: FRÁGIL. Frágil é a existência e essa incerteza inteira dilacerando jardins. Ele não sabe disso. Talvez seja meu erro em deixar que a comunicação seja interrompida a cada desembarque, a cada beijo. Saliva. Derramada e calma como quem não tem quentura no sangue. Corre devagar. Frieza... feito água de bica escorrida para lavar pratos. É preciso velocidade para os encontros. Quentura. É preciso espasmos, estrelas, sinos, sons... e eu não tenho mais nada disso dentro. Só silêncio. Não dá para abraçar o mundo assim. Não dá para sorrir assim... e ele precisa saber. Ele não sabe. Nem dele. Nem de mim. De nada. Só de vazios, silêncios... à espera dos trilhos... de redes.
Preciso de alguma mão pra me balançar.