30 de jul. de 2012

Homem agoniza desde o início da noite


Um elemento foi visto nas últimas horas da tarde de hoje agonizando em plena via pública. Segundo relatos de pessoas que estiveram presentes no local, a vítima agoniza até agora aos gritos de socorro para todos os que passam e diz que quer apenas atenção. Até o fechamento desta edição não obtivemos informações sobre seu estado atual.

Nossa equipe foi em busca de informações e apurou alguns fatos importantes que podem, de forma absoluta, elucidar o caso junto à polícia de nossa cidade. De acordo com populares, trata-se de um homem de boa aparência, jovem, pai de família e filho dedicado. As primeiras informações são que o seu clamor é apenas por um abraço. Usuário de redes sociais, que fazem muito bem aos seus objetivos diários, ele tem milhares de amigos em suas redes. Confessou ao vendedor de cordel da esquina da sua rua – que não quis se identificar – que estava seguro de si e que confiava bastante em sua rede de contatos online. Suas “teias” digitais estão muito bem fixadas e suas publicações são replicadas por muitas pessoas. Diz ainda que seus costumes foram modificados por esse uso. Onde ele estiver, vem a vontade de dizer o lugar, o que está comendo e ainda dar opinião. Sua vida é um livro aberto, devido aos novos costumes da sociedade da informação que estão melhorando a sociedade a passos largos.

Orgulha-se de ter suas opiniões, sugestões e críticas curtidas por muitas pessoas e a uma velocidade incrível. Suas emoções não podem ser diferentes. Elas têm que ser compartilhadas. Seja saudando, reclamando da vida, dizendo que ama todo mundo ou recebendo as maiores e melhores declarações de admiração. Muitas vezes acompanhadas por imagens. Ele virou fotógrafo, jornalista e formador de opinião. E isso o faz sentir melhor. Para aumentar ainda a sua popularidade, segundo ele, saiu procurando pela rede as coisas mais fora do senso comum possíveis. Afinal, curtir o que todos curtem é muito chato e escrever sobre o que ninguém quer saber é, em sua concepção, muito brega.

Vem de uma criação cheia de problemas de socialização e está em meio a um mundo de pessoas que o amam, compartilham suas opiniões, dizem que estão com saudades e ainda frequentam as melhores festas da cidade. Não tem como não sentir-se feliz. Sua ânsia por um clique mais rápido, uma internet mais rápida ou um login mais rápido, o faz bater o mouse na mesa. Sua falta de paciência tornou paciente. Enfermo que ficou, pediu o auxílio de seus mais de 3 mil amigos da rede. As palavras de apoio eram imensas. Diziam: “Força, nós te amamos” , “estou orando por você”, “ estou aqui”. Todos sabiam como ele estava devido a uma postagem a mais. Desligou-se do mundo. Foi quando se deu conta do que é ser presente e como a ausência provoca. O seu livro de rostos digitais não deu nenhum abraço. O tempo passou muito fora dos dispositivos. O brilho da tela é o brilho de seu rosto branco dos cabelos e barba que não refletem vivência alguma, só existiu. E ele, desconectado, compartilhou sua solidão com os mais de 3 mil desejos existentes. Ele chamou a atenção. Só.

O homem do Cordel finalizou: “Faltou viver”

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